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Diário de um Engenheiro de Dados

Quinze anos depois, o DBA virou engenheiro de dados, a fita virou lakehouse — e eu continuo achando que desta vez vou sair no horário.
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Em 2011, publiquei o Diário de um DBA. Naquela época, o drama envolvia fitas LTO de backup, bancos de dados SQL Server 2000, códigos engessados e um chefe que só pisava no escritório às 11h32. Quinze anos se passaram. O DBA evoluiu para engenheiro de dados, a velha fita magnética virou lakehouse, o MSN deu lugar ao Slack… e eu? Eu continuo me iludindo de que, desta vez, vou sair no horário. Qualquer semelhança com a realidade continua não sendo mera coincidência.

Manhã: o despertar das máquinas (e do Slack)

07h50. Abro o notebook dez minutos mais cedo, na doce ilusão de adiantar a vida antes da reunião diária. O Slack já me recebe com 137 notificações. Um colega bombardeou o canal #random com catorze vídeos de futebol antes das oito; agora me manda um "bom dia!" emendado numa tese de mestrado sobre os erros do VAR de ontem. Certas coisas rodam perfeitamente em qualquer infraestrutura.

08h10. Triagem rápida: três marcações gerais (@channel) que de urgentes não tinham nada, oito mensagens de um usuário jurando que o painel "mostrava outro número ontem", os parabéns automáticos do RH para um aniversariante que eu não conheço, e dois recrutadores no LinkedIn me oferecendo vaga de DBA (o algoritmo não esquece o meu passado). Os alertas de sistema da madrugada se auto-resolveram. Isso é ótimo, mas profundamente suspeito.

08h50. O atraso de processamento no nosso sistema de fila de mensagens passou de 40 milhões de eventos. O motivo? O DBA do cliente reiniciou o servidor da filial sem avisar — quinze anos depois, essa frase não mudou uma vírgula. Reinicio a nossa conexão, a pressão cede, e nossos dois bilhões de eventos diários voltam a escoar em paz. Enquanto isso, no canal de suporte, vejo os veteranos ensinando o estagiário a dizer ao cliente que "o sistema está instável devido a um equívoco na operação do usuário" (tradução: ele clicou no botão errado).

09h05. Hora de ser o cobrador oficial da firma. Tem código parado para revisão há uma semana, pedido de aumento de capacidade na nuvem atrasado, atualização de sistema adiada por três sprints (já perdi a conta) e uma liberação de firewall bloqueada "por engano" pela terceira vez. Ah, e claro: o meu chamado para uma segunda tela, aberto no RH há três semanas. Da última vez, me mandaram um mousepad.

09h25. Pausa para o café. A cápsula acabou; requento o de ontem, respeitando as tradições sagradas da TI. Da videochamada ao lado, ouço um analista soltar a clássica para o cliente: "Você quer que eu resolva do jeito certo ou do jeito rápido?". Penso comigo: lá vem bomba.

09h50. Chamado urgente! Alguém no cliente rodou uma atualização sem filtro e doze mil registros "sumiram". Em 2011, isso significava caçar uma fita de backup, arrumar um servidor emprestado e perder a tarde inteira. Hoje, graças à tecnologia moderna de time travel dos dados, resolvo com um comando de 30 segundos. Quer dizer… resolveria, se a rotina de limpeza não tivesse apagado os históricos às seis da manhã. O backup em nuvem avisa: "recuperação iniciada, disponível em até 12 horas". O pior? O analista prometeu para o cliente que resolvia "a parada" em cinco minutos. O servidor legado onde esse desastre mora atende pelo carinhoso nome de Lady Aracnea II.

10h15. Perco uma aposta. Todo dia apostamos a que horas o colega conhecido como "Irmão" entra na daily. Hoje: 10h15, câmera desligada, alegando "problemas de conexão". Longe do recorde dele — 11h40, com a foto de perfil congelada fingindo ser vídeo. O estagiário levou os meus setenta e cinco centavos no PIX.

10h45. Os doze mil registros voltaram: uma cópia perdida sobreviveu num canto esquecido do sistema. Obrigado, eu do passado. Volto ao que fazia: refatorar um código monstruoso que consulta uma tabela com oito bilhões de linhas de uma vez só, travando tudo. As colunas se chamam tmp_final_v2 e saldo_NOVO_usar_esse. Os péssimos hábitos evoluíram, mas não morreram.

11h15. Guerra do Clima, edição híbrida. No escritório físico, metade quer o ar no 18°C, a outra metade está de casaco. No remoto, a guerra é "câmera ligada × câmera desligada" na reunião com o cliente. Ouço o som de espadas sendo afiadas no canal #geral.

11h32. A bolinha do sócio fica verde no Slack. Catorze ícones de "digitando…" somem ao mesmo tempo. Ao fundo, quase dá para ouvir a Marcha Imperial.

11h45. Discussão no canal #almoco: iFood com cupom vs. marmita vs. japonês por quilo. Digo que topo qualquer coisa que o vale-refeição cubra e que seja minimamente comestível. Nesse exato instante, dispara o alerta financeiro: alguém rodou um processo colossal sem filtro na nuvem. A projeção de custo subiu US$ 1.400 em duas horas. Em 2011, a gente estourava a memória do servidor; hoje, a gente estoura o cartão de crédito da empresa. Preparo meu taser de choque — que hoje o RH chama de "reunião de feedback".

11h59. Ninguém respira. Todos os status prestes a virar o ícone de hambúrguer (🍔) ao mesmo tempo. E eu lá, investigando quem está sobrecarregando o banco: um serviço de terceiros buscando a mesma bendita linha dez vezes por segundo. Quinze anos depois. A mesmíssima falha. Só que agora rodando na nuvem.

Tarde: ilusões e promessas

13h05. Volto do almoço e dou de cara com a solicitação clássica: "Dá pra rodar um ajustezinho direto no meu registro de ponto?". Em 2011, eu dizia que ia "pensar no caso". Hoje, explico que o sistema é em nuvem, tem trilha de auditoria imutável e proteção pela LGPD. Depois, digo que vou pensar no caso.

13h20. Hora de montar a política de limpeza de dados. Há 40 terabytes de arquivos inúteis acumulados desde 2009 que "um dia vamos precisar" — é a reencarnação do meu chefe de 2011 em formato de política de retenção. A diferença é que agora o "guarda tudo" chega todo mês na fatura da AWS, cobrada em dólar. O armazenamento frio em nuvem é o nosso novo armário das lagartixas.

13h45. Hora da Soneca, edição remota. Três câmeras se apagam simultaneamente após o almoço, seguidas de um "Pode repetir? Cortou aqui" que não engana viva alma. No presencial, o esporte continua sendo ver quem tira a primeira foto de quem dormiu na cadeira.

14h00. Reunião de "alinhamento estratégico" com a TI do cliente. Cobro a liberação do firewall e os acessos necessários. Em troca, me dão os parabéns por descobrir que o gargalo deles era o antivírus travando o banco de dados. Cinco minutos depois, a reunião morre engolida pelas notificações de celular. O Google Agenda remarca tudo sozinho para a semana que vem — ei, pelo menos isso melhorou.

14h30. Um analista do cliente me pede para revisar a "arquitetura de dados" dele: são 300 planilhas costuradas por PROCVs, alimentando um painel que trava toda santa segunda-feira. Quando menciono boas práticas e contratos de dados, ele faz a cara de quem viu um fantasma. Alguns clássicos da TI nunca envelhecem.

14h52. O gerente do cliente liga desesperado, mastigando a sobremesa: a diretoria exige para amanhã um protótipo "em cima dos nossos dados". Ninguém nunca montou algo assim em uma tarde. Reaproveito um código antigo, remendo três fontes de dados e ergo um painel que, se você olhar apertando os olhos, até parece estratégia de alto nível. Gasto o resto do dia tentando explicar por que aquele número bonito precisa ser revisado antes de chegar à diretoria. Essa parte, atalho nenhum resolve.

15h20. A conexão do cliente cai e o sistema de autenticação resolve não mandar o token. Ao primeiro sinal de instabilidade geral, materializam-se no escritório um tabuleiro de xadrez, um baralho e — juro por Deus — uma gaita. Aproveito para cobrar pela quarta vez o chamado do meu monitor e passo 15 minutos explicando ao fornecedor que "estratégia de backup sem testar a restauração não é backup, é só fé". Repito essa mesma frase desde 2011.

16h00. O gerente do cliente entra na sala de crise virtual mandando um GIF de alguém socando a mesa. Milagrosamente, a rede volta dois minutos depois.

16h20. Chamado crítico de verdade: o sistema de fechamento da folha de pagamento travou. "Se não voltar, ninguém recebe e a culpa é da TI". O analista responsável por criar aquilo saiu da empresa; quem herdou o pepino não faz ideia do que o código faz. A documentação até existe: é linda, impecável, mas descreve uma versão do sistema que não existe desde março. Mapeio a rede de dependências do código como um detetive caçando pistas e, voilà: um cruzamento de tabelas multiplicando linhas e travando tudo.

17h00. Corrigido, testado e publicado. Resposta do usuário final: "Ainda bem que a TI resolveu desta vez". Mais um usuário feliz e completamente alheio ao fato de que, entre o clique dele e o número na tela, existem cinquenta sistemas integrados, dois bilhões de eventos diários e um engenheiro de dados emocionalmente refém de um servidor chamado Lady Aracnea II.

17h05. O gerente avisa: a diretoria cancelou a apresentação do protótipo que pediu com urgência. A decisão foi tomada há cinco minutos. As horas extras vão para o mítico "banco de horas", que será "negociado no futuro". Em silêncio, alguns analistas ligam a tag "Open to Work" no LinkedIn. Volto para a minha limpeza de dados.

O plantão: a noite é uma criança (chorando)

17h40. Atualizo o quadro de tarefas com os dedos cruzados. Bate uma melancolia ao perceber que faz dez dias que não fecho o notebook antes das 19h.

17h55. Todo mundo já com o status "saindo 👋" quando a sirene do plantão toca. Ninguém respira. Ninguém olha. Mas a escala é minha: a região onde roda o banco de dados do cliente caiu, e amanhã é dia de pico de faturamento. Enquanto meu código automatizado tenta reconstruir a infraestrutura do zero, vejo as bolinhas verdes do Slack se apagando uma a uma, acompanhadas de piadinhas de despedida sobre "a vida dura de quem carrega o pager".

19h35. Missão cumprida. Infraestrutura reconstruída, banco de dados reserva promovido, backup validado, permissões restauradas e testes rodados. Tudo em uma hora e meia. Em 2011, a mesma catástrofe me custaria três horas de madrugada só procurando o CD de instalação. É, acho que estou ficando bom nisso.

Fecho o notebook e "vou embora": dou oito passos até o sofá da sala. Pelo menos o estacionamento agora é de graça. O banco de horas, como sempre, segue sendo negociado no futuro.


A tecnologia mudou tudo: a fita magnética virou banco de dados temporal, o servidor físico no corredor virou código na nuvem. Mas, no fim do dia, não mudou nada: o usuário ainda apaga a linha errada, o chefe ainda quer o projeto para ontem e a documentação perfeita ainda é um mito — só que, hoje, um mito muito mais bem formatado.

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